infâncias, borboletas e gatos
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| As filhas do pescador, Los Horcones, Chile, 1956. © Sergio Larrain/Magnum Photos |
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Benita y los gatos.
Selva Almada, Los inocentes.
Sudamericana, 2025•
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O caso da borboleta.
Geovani Martins, O sol na cabeça.
Companhia das Letras, 2018•
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O ponto de partida aqui é uma análise espelhada de dois contos. De um lado um autor, do outro uma autora. Deste território, um menino e uma borboleta. No território além da fronteira, uma menina e vários gatos.
Selva Almada é uma escritora argentina que tem como chão de escrita as violências, masculinidades, infâncias e as marcas profundas do poder hetero-patriarcal sobre corpos e vivências.
O conto Benita y los gatos compõe o livro Los inocentes, coletânea de contos onde a infância é trazida até camadas mais profundas das percepções muitas vezes rasas do olhar adulto.
Não sabemos a idade de Benita, mas sabemos que Benita vive alheia a afetos. E vive cercada de gatos. Não os seus, mas os gatos callejeros. Benita não pode ter gatos pois seu pai faz parte do grupo de pessoas que odeiam gatos. Mas Benita sabe, seu pai odeia (ou teme) gatos pois sabe que não são obedientes. Benita também não é obediente. Ao passo que seus colegas pensam em casar e ter filhos, Benita sonha em ter muitos gatos.
O casamento seria para Benita o destino de sua mãe: estar ao lado de um homem que utiliza o álcool como álibi para seu comportamento violento. Uma violência que não se encerra apenas na figura do pai: um feminicídio acontece na vizinhança, anunciado pelos gatos e silenciado por todos ao redor.
Benita vive em um contexto de violência e medo, mas também de imaginação e fantasia.
Selva Almada explora a fantasia infantil como refúgio; como fuga de um cotidiano carente de afeto e permeado de violências.
Se ter ou não ter pai e mãe representa a mesma ausência para Benita, por que não querer ser um gato, mesmo sabendo que não o será?
O gato assume a figura de rebeldia, de desobediência à figura masculina opressora e violenta.
Geovani Martins é um escritor brasileiro. Seu livro de contos O sol na cabeça, transita por representações da infância e adolescência, marcadas pela pobreza e racismo.
O conto O caso da borboleta narra a experiência e experimentações do mundo do menino Breno.
Breno tem 9 anos e mora numa casa que tem uma janela na cozinha, uma janela pro mundo representado pelo jardim da casa. Breno nunca pensou em ser borboleta, ele sabe que é menino e não lagarta, mas Breno pensa em voar: como jogador de futebol ou piloto de avião. A narrativa nos sugere que Breno tem uma infância com afeto, ou pelo menos com batata frita no almoço. Na atmosfera do conto, não há uma figura autoritária masculina, há uma avó.
A borboleta assume um caráter de transformação, de fases e crescimento.
Geovani transita por uma imaginação infantil exploratória do mundo. Um movimento de tentativas, projeções, desafios e indagações que expandem as possibilidades de autonomia, desenvolvimento e humanidade
Nos dois contos a fantasia e imaginação infantil aparecem como potência para a descoberta e projeção das personagens no mundo. Benita a partir do desafeto e violência; Breno a partir da transformação e aquisição de novas habilidades.
O cerne dos dois contos é a valorização da capacidade imaginativa e criadora que crianças, em quaisquer circunstâncias, vivenciam como possibilidade de construção de identidade e de estar no mundo.
Os contos são convites para pensarmos a infância em sua potência criadora, em sua habilidade de representar o mundo e até poetizá-lo.
Paloma Franca Amorim, nos prova a pensar que
Ignorar os grandes feitos intelectuais de uma criança é retroagir rumo a um tempo-espaço medievalesco e frio. Por outro lao, convidar nossa mentalidade adulta à perpectiva da criança autora, poeta, significa tirar a infância do lugar de ornamento da vida adulta, concebendo-a como uma forma de vida em si, traduzível em decodificações próprias e culturalmente vivas. (Amorim, 2025, p. 220).
Ao olhar para a história da infância, nos deparamos com um período em que muitos autores(as) denominam como período de indiferença, ou infância negada. Ou seja, refere-se ao período onde ser criança não representava nada, apenas a possibilidade de um novo adulto para o mundo do trabalho. Um mini adulto, sem particularidades, sem necessidades próprias.
O reconhecimento da infância em sua particularidade figurou em tratados e convenções internacionais e ecoou em legislações nacionais de reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos.
No entanto, essa “evolução” na maneira com que a sociedade passou a encarar suas crianças forjou-se sob a lógica capitalista e neoliberal de desenvolvimentos das sociedades.
E que ninguém se iluda: o neoliberalismo, a despeito do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA e convenções internacionais, segue compreendendo a infância em sua potencialidade para a exploração de corpos para o trabalho e objetificação.
De novo Paloma:
Pensar no futuro das crianças em geral se situa na esfera da expectativa de uma vida adulta bem-sucedida, as noções neoliberais de desenvolvimento humano na sociedade capitalista movem esse tipo de aberração educacional. É comum encontrarmos pais e professores famintos por uma educação que prepare o aprendente para os desafios da vida que se apresentarão como obstáculos a serem superados. Desafios todos nós acumulamos na duração de nossa jornada humana, o cálculo suposto pela educação neoliberal envolve uma atuação relacionada à prática de uma civilidade carnívora, isso é, atitudes meritocráticas e/ou compassivas diante das necessidades materiais impostas pelo habitat do trabalho e da exploração (Amorim, 2025, p. 220).
Desvalorizar, podar ou ignorar a capacidade da criança em elaborar mundos, em imaginar novas realidades, em fantasiar e fabular sua existência, são formas de negação da infância. Tolerar que algumas crianças fabulem e imaginem mundos extraordinários, ao passo que outras crianças são arrancadas de sua infância por meio de mecanismos de violência, abuso e trabalho infantil, é perpetuar a exploração de classes e barbarização da vida.
Como ensinou Betinho, o fim da infância é o fim de todos nós •
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AMORIM, Paloma Franca. A criança autora. In: Economia da tragédia. 1ª ed. São Paulo: Alameda, 2025.