a civilização e o mar

 

Tim Pitsiulak

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José Falero. Mas em que mundo tu vive?.

Companhia das Letras, 2021 • 277 pp

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Mas em que mundo tu vive? é certamente o melhor livro de crônicas já publicado. Cada crônica é uma cutucada a mais numa ferida que não fecha. A escrita é seca, cortante, poética e visceral. 

Em “Onde o filho chora e a mãe não vê” é admirável a habilidade de Falero em  ir introduzindo a leitora para construir um imagem da imensidão do fundo do mar, das profundezas que jamais acessamos, para logo associar essa imagem criada às profundezas da “periferia”. 

Mas a genialidade maior é a exaltação de uma das capacidades humanas mais extraordinárias: saber escrever.

Baleias e outros animais marinhos que vivem nas profundezas não sabem escrever. 


"Fico pensando nessa baleia, capaz de transitar tanto nas maiores profundezas do mar como na superfície. Seria interessante se ela soubesse escrever, para poder nos trazer, em forma de crônicas, contos, romances e poesias, um pouco sobre o dia a dia desse mundo desconhecido" (p. 154).


A periferia sabe escrever, ainda bem. A literatura existe para que as profundezas dessa nossa civilização são sejam um mistério como as profundezas do mar. O texto literário é sempre revelação do outro no confronto com o eu.

E essa é uma marca constitutiva da literatura do Falero: o confronto. O confronto com a profundeza de uma realidade marcada pela exploração capitalista e pela desumanização racista.

Falero escreve do espanto em saber que nosso melhor submarino não aguentaria a pressão de chegar às profundezas do mar para que pudéssemos conhecê-lo.

A escrita, que revela as mais loucas e densas profundidades da humanidade deve ser, então, nossa maior tecnologia.



“Um poema não é pão, é trigo que pode levar a luz para os quartos de despejos que assombram nossos corações”. Sergio Vaz. •