#5 montanha

 As montanhas são os pontos mais altos da terra (pesquisa google, 17 de agosto de 2024).


Algo despertou vulcanicamente em mim.

Há algum mistério na montanha? Um ente quase místico, habitante dessa terra desde o “om”, o som fundador do universo.

Na minha memória, o registro de ter relacionado “conquistar” uma montanha com a experiência do parto. Dessas duas, experimentei apenas a primeira sensação.


Lendo Ioga, de Emmanuel Carrere, decidi ir atrás das montanhas. Citando um poema zen, Carrere brinca com a dimensão imagética das palavras para dizer que quanto mais nos aproximamos, mais fantasmagórica a montanha fica, mas só assim podemos conhecê-la realmente.

Algo tipo tese, antitese e síntese.

Conquistar uma montanha é dialético (e a expressão soa algo romântica, aliás).



Leonilson, Da qualidade de ser forte, 1991, coleção particular. Foto - Marília Camelo/ Pinacoteca do Ceará
Leonilson, Da qualidade de ser forte, 1991, coleção particular. Foto - Marília Camelo/ Pinacoteca do Ceará




Que a terra há de comer.

Mas não coma já.


Ainda se mova,

para o oficio e a posse.


E veja alguns sítios

antigos, outros inéditos.


Sinta frio, calor, cansaço;

pare um momento; continue.


Descubra em seu movimento

forças não sabidas, contatos.


O prazer de estender-se; o de

enrolar-se, ficar inerte.


Prazer de balanço, prazer de voo.


Prazer de ouvir música;

sobre papel deixar que a mão deslize.


Irredutível prazer dos olhos;

certas cores: como se desfazem, como aderem;

certos objetos, diferentes a uma luz nova.


Que ainda sinta cheiro de fruta,

de terra na chuva, que pegue,

que imagine e grave, que lembre.


O tempo de conhecer mais algumas pessoas,

de aprender como vivem, de ajudá-las.


De ver passar este conto: o vento

balançando a folha; a sombra

da árvore, parada um instante,

alongando-se com o sol, e desfazendo-se

numa sombra maior, de estrada sem trânsito.


E de olhar esta folha, se cai.

Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.


Tem na certa um cheiro, particular entre mil.

Um desenho, que se produzirá ao infinito,

e cada folha é uma diferente.


(fragmento do poema "os últimos dias" de carlos drummond de andrade, publicado no livro A rosa do povo)





Se montanha fosse verbo, diria que em abril montanhei por um pedacinho do sul do país. Li o poema do Drummond alguns dias antes e ele me acompanhou na viagem. O poema é um desejo de só chegar ao cume depois de experimentar aquilo que dá sentido ao que somos.

Além da qualidade de ser forte, a montanha nos obriga a sentir mais devagar. A experiência, lo que se nos pasa, nos atravessa, exige a calma de uma montanha.



"A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço."

Jorge Larrosa Bondía


Escrever, assim como subir uma montanha, é se encontrar. Voltei, mais uma vez.




Nos vemos!



Link para o texto Notas sobre a experiência e o saber de experiência, de Jorge Larrosa Bondía:

https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt