sin perder la ternura jamás
| Imagem extraída do livro A revolução de Anita. |
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Shirley Langer. A revolução de Anita.
Expressão Popular, 2020 • 328pp
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Ler A revolução de Anita em época de eleição no Brasil de 2022 é estar numa fronteira que divide esperança e desespero. A principal estratégia do fascista que disputa a presidência é o pânico moral/social. O romance histórico ambientado na Cuba de 1961 narra um episódio onde, após um ataque por bombardeio aéreo, a programação normal dos rádios é substituída por música clássica tão logo se finda o anúncio feito pelo Governo com informações e orientações ao seu povo.
A programação normal não podia seguir pois evidentemente o curso normal daquele dia havia sido interrompido. Era preciso estar em estado de alerta; mas não de alarde. Alarde imobiliza no melhor dos cenários, no pior, produz atos ou falas que flertam com a barbárie.
Se poucos anos atrás éramos (e somos) bombardeados por programas sensacionalistas, hoje eles caminham de mãos dadas com as notícias falsas do universo whatsapp. Os elementos de coesão social atuais transitam pelo desespero, superficialidade e reprodução de um cenário distópico onde o comunismo tem como bandeira banheiros unisex.
Voltando à Cuba de 1961, a opção pela música clássica é no mínimo instigante. Refletindo sobre a produção de sentido dessa escolha, um primeiro elemento é a ambientação produzida, que permite uma mensagem que fica entre o “já não estamos numa programação normal, também não estamos num momento de descontração ou alegria para uma pachanga”. Mas a mensagem se estende e finaliza com um “também não é momento para seguirmos numa cobertura dos fatos que só produzirá um medo infrutífero”.
Sem alarde, mas alerta.
É óbvio que essa é uma opção política que demandava confiança no governo revolucionário. E aqui saio um pouco da fronteira, e caminho em direção à esperança. Não há teleologia na história e o fatalismo nunca produziu transformação social. A formação política de um povo é resultado, isso sim, da convicção de que cada pessoa carrega a potência de desenvolver capacidades artísticas, afetivas, contemplativas etc. que as façam expandir como seres sociais.
Ainda que a disputa no campo hegemônico e a luta pela formação do homem e da mulher tenha esbarrado tanto nos obstáculos do medo social e da tradição conservadora, a esperança que deve brotar é a de que, como disse o poeta, “as pessoas não são más, só estão perdidas”.
¡Ainda há tempo! •
[como suponho foi possível notar, esse texto veio pra cá com um certo atraso, era ano de eleição e de sufoco, o blog foi abandonado, mas a escrita reexiste e o fascista não se reelegeu]