#4 nada está fora do lugar

Há uns dias eu conheci uma partezinha da imensa obra de Josely Vianna Baptista. Imensa na profundidade, beleza e insubmissão às bordas.

Em um mundo onde a colonialidade se impõe como limitadora da expansão dos sentidos, a poética de Josely desafia esse peso de uma linguagem ocidental com uma estética barroca que emerge desde uma  poesia feita da cosmofonia, da reza, dos cantos, dos rituais, da luta. 


Reivindicando, com Carpentier, o barroco como expressão estética latinoamericana, a obra da autora formada a partir da língua e cultura guarani é sem dúvida uma representação artística da potência de vida e cosmovisão dos povos originários dessa porção geográfica.


Essa expressão estética decolonial, em contraposição ao Renascentismo, carrega “uma  unidade  coexistente  entre  linguagem, mundo,  mito  e  realidade  presente  no  Barroco,  que  se inclina  também  em  desfazer  a dissociação  entre  sujeito  e  objeto.  Como  num  desafio  epistemológico,  o  barroco  é classificado [...] enquanto irregular, deformado, estranho, incoerente, retorcido e dissonante”¹.


Quando vi a obra Terra sem mal, desejei entrar dentro dela e caminhar por suas irregularidades, sua irreverência e potência criativa. Aí me lembrei de um poema do salvadoreño Roque Dalton:


Arte poética

Poesia

Perdoa-me por haver te ajudado 

a compreender

que não estás feita só de 

palavras.


A poesia é feita de cheiro, de memória, de resistência e de futuro. De fato, a arte existe para nos lembrar que a vida, especialmente essa vida orientada por uma razão ocidental, não basta. E é isso, o que segue a partir daqui são fragmentos da obra (aerada) dessa mulher que, além de incrível, é paranaense, provando que nem tudo que vem desse estado é vergonha nacional.



nenhum gesto 

sem passado

nenhum rosto

sem o outro





Canto II

A fonte da fala


Ayvu rapyta

ayvu: linguagem humana; idioma, fala.

apyta: base, alicerce, origem; apy: extremidade; yta: apoio.

O fundamento da linguagem humana, a fonte da fala, é a palavra-alma originária, “aquela que Nossos Primeiros Pais repartiriam com seus numerosos filhos ao enviá-los à morada terrena para se erguerem [nascerem]”, conforme relato do cacique Pablo Vera num encontro com Cadogan. Na versão do mburuvicha Kachirito, de Paso Jovái, “a fonte da fala foi criada por Nosso Primeiro Pai, que a fez parte de sua divindade, para medula da palavra-alma”. (Ayvu, 42) Aliás, foi a descoberta intrigante e instigante de que ayvu (linguagem humana), ñe’êy (palavra) e e (dizer) contêm o duplo conceito de “expressar ideias” e “porção divina da alma” que levou Cadogan a debruçar-se, anos a fio, no estudo da religião guarani.




exercício espiritual


Aqui poucas letras bastam,

pois tudo é como papel em branco.

Manuel da Nóbrega. Carta 8 (1549)


risco

no portulano

da areia

o roteiro do error

(do latim errore):

viagem sem rumo

e sem fim,

como a dos ascetas

e dos apaixonados,

fadados ao êxtase

e ao naufrágio










Nos vemos!




¹ Lara, P. J. (2015). Expressões de estética decolonial na América Latina - barroco, cultura e dosobediência epistemológica. Revista Tópos, 7(2), 113–130.


² Poesia extraída da ontologia POESIAS DE LUTA DA AMÉRICA LATINA, pesquisa e tradução de Jeff Vasques. Atentos que esse mês sai o volume 2 dessa antologia que é uma ferramenta para o fim da sociedade do capital.