construindo uma desidentidade
| O clã das onças, acrílica sobre papel de Jaider Esbell, 2020 (recorte da capa do livro). |
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Micheliny Verunschk. O som do rugido da onça.
Companhia das Letras, 2021 • 160 pp
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Um professor de literatura dizia que “quem gosta de mensagem é carteiro”. É óbvio que ele tem mais de 50 anos. Mas empresto suas palavras para me sentir autorizada a desviar a principal ênfase que Micheliny Verunschk quis dar ao seu romance (que, vale o parêntesis, é um soco no estômago mesmo para quem já tem a clareza da violência e genocídio próprios do processo de colonização) e trazer aqui para essas divagações o que vou chamar encontro com a personagem.
Poderia ser identificação, mas suponho que identificar-se delimita traços em comum, mimeticamente. Aqui o caminho é mais o da desidentidade provocada pelo encontro.
A possibilidade do encontro é mais ampla, é aberta à contraposição, é dialética.
A leitura de O som do rugido da onça é intensa, mas não é fluida. Exige um exercício constante, e não natural, de descolonização do olhar poético. Exige um abrir-se para uma perspectiva, uma mirada, ao mesmo tempo infantil e indígena. Não é uma tarefa fácil já que a primeira está distante no tempo e a segunda, no espaço.
Mas então vem a segunda parte do livro, com uma epígrafe que antecipa os mistérios do encontro com a outra margem do rio:
A gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito diverso do que em que primeiro se pensou” Guimarães Rosa.
O encontro com Josefa foi como chegar na outra banda do rio. Em termos de leitura, foi como voltar pra narrativa, sentir-me nela. Mas o encontro transcende a leitura, assim como a leitura, muitas vezes, transcende a razão. Catarse.
Meu encontro com Josefa está na fronteira daquilo que se é e aquilo que se deseja. Josefa não sabe, mas enquanto constrói sua desidentidade abre caminho para uma desconstrução de quem a lê.
Uma desconstrução (ou uma destruição) dos muros que nos cercam. Muros imaginários que nos limitam, que não permitem que pensemos outras possibilidades de viver que não essa ao qual estamos acostumadas.
Josefa aparece e some da narrativa de forma muito sutil, assim mesmo como uma onça que não quer ser notada e até as árvores fazem silêncio.
Mas diferente da onça, a personagem está ali num segundo plano, na caça de si mesma.
Sabe que é apenas uma mulher que pretende se manter de pé por si mesma, e naquele momento acha que isso é muito. Uma mulher que se descobre ou que se inventa em conexão com as múltiplas identidades que agregou ao longo da vida. Um caminho imperfeito que, no entanto, é só seu (p.115,116).
Nesse percurso da caça de si mesma, o desafio é ouvir atentamente um ronco alto e sabê-lo som do rugido da onça, não trovão. •
