#3 aplaudir

O último rascunho pra esse escrito, de fevereiro, era uma tentativa de registrar a beleza em aplaudir o pôr-do-sol. Transitar por uma latinidade fronteriza é uma beleza maior ainda. Aplaudir o pôr-do-sol, me dijo un chico uruguayo que conocí en enero, é um hábito cotidiano de quem frequenta as praias por lá. Na Colômbia não se bate palmas na frente da casa de uma pessoa para chamá-la. Um colombiano vivendo no Brasil, ouvi dizer, pensou que estavam aplaudindo sua casa.

Quantos significados culturais são possíveis para uma única ação? Mais, numa mesma convenção cultural, quantas interpretações são possíveis a partir da intensidade, do ritmo, da duração do aplauso. 


Era sexta, de um lado uma taça de vinho, do outro uma luminária. No meio uma rede (embora eu estivesse desejando uma poltrona) e uma antologia de contos pan-americanos. Sozinha, aplaudi um conto que foi visceral. Fiquei pensando que tempos atrás julgaria o autor por tanta misoginia, reduzindo a obra ao artista. Mas naquela noite não, apenas permiti que a construção impecável da narrativa e das personagens me impactasse. Aplaudir foi o ato mais espontâneo, talvez motivado pela meia garrafa de vinho que me acompanhou até ali. Pra quando eu voltar aqui, era um conto do salvadorenho Horacio Castellanos Moya, Sozinhos no universo inteiro. Depois de lê-lo, não quis arriscar nenhuma outra leitura, com medo de não ler um conto não tão bom quanto e minar toda o êxtase que estava sentindo.






Ausência é perspectiva.

Era pra esse espaço ser habitado periodicamente por registros de encontros, mas uma ausência de nove meses separa o último texto deste. De novo Virginia Woolf: “Devemos começar sem nenhuma ideia fixa sobre onde vamos passar a noite, ou quando pretendemos voltar; o caminho é tudo”. O caminho tem sido presente, em toda sua polissemia. Foram nove meses encontrando-me em ausências, em letras, em ruas percorridas, em beijos demorados, em ressacas de domingo. 

Tô aplaudindo internamente cada vivência, literária ou não.


Nos vemos!