#2 todo domingo é um deserto
Ainda é janeiro, a pele suada, um teto que não é meu, uma ausência toda minha. É domingo, é quase um deserto aqui e lá fora. Se não fosse pelos diálogos com Jeferson Tenório, Virginia Woolf e agora Carpentier, o fundo poço pareceria um lugar aconchegante. A literatura, assim como a arte, reorganiza o caos, junta os caquinhos, alimenta desejos e utopias.
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| Sister by Darren Thompson |
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“Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa - estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros - estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável - a leitura nos dá prazer. é um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, partindo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.”
Trecho do texto de Virginia Woolf, A paixão da leitura no livro O sol e o peixe - prosas poéticas.