Quem quer perder privilégios? Notas sobre desumanização e violência a partir de bell hooks
Reconhecer privilégios. Essa é tônica de muitas falas e posicionamentos feministas, quando da tentativa de convencimento da posição de superioridade ocupada por homens (e mulheres) brancos.
bell hooks, em Teoria Feminista: da margem ao centro, afirma: homens devem participar em condições iguais da luta revolucionária contra a opressão sexista. hooks ensina que, ainda que os homens não sejam explorados e oprimidos pelo sexismo, também sofrem em razão dele. Reconhecer isso não deve apagar ou diminuir a responsabilidade dos homens na manutenção de seu poder (e privilégios) no regime patriarcal.
Nos resta a questão: poderia o exercício do reconhecimento de privilégios ser uma possibilidade de tomada de conscientização crítica e superação de atos violentos de opressão e exploração contra as mulheres?
Não podemos aqui desconsiderar as dimensões de raça e a classe que, junto com o sexismo irão determinar a intensidade e a forma como as mulheres são afetadas pela violência. Da mesma forma, esse “nó” é determinante para na condição privilegiada dos homens. Homens pobres da classe trabalhadora raramente acessam os privilégios relacionados ao sexismo, alcançados por homens que ocupam as posições mais altas da pirâmide social. Sobre a relação de homens pobres e operários com o sexismo, hooks escreve:
Esse homem está normalmente “ferido”, emocionalmente assustado pelo fato de não possuir os privilégios ou o poder que, segundo a sociedade, o “verdadeiro homem” deveria possuir. Alienado, frustrado, preterido, ele pode atacar, abusar e oprimir uma mulher ou as mulheres em geral, mas não extrai benefícios da ideologia sexista em que acredita e que ajuda a perpetuar. Quando bate numa mulher ou a estrupa, não está exercendo privilégios ou obtendo recompensas; ele pode se sentir satisfeito por estar exercendo a única forma de poder que lhe foi concedida. A estrutura de poder da classe masculina dirigente que promove esse tipo de abuso sexista contra mulheres é que obtém os verdadeiros benefícios e privilégios materiais de tais atos. Na medida em que ele está atacando as mulheres e não o sexismo ou o capitalismo, ele ajuda a manter o sistema que lhe oferece pouco ou nenhum benefício e privilégio. Ele é um inimigo das mulheres. É também um inimigo de si mesmo. Também é oprimido (hooks, 2019, p.120)
Homens são socializados para acreditar que a violência é algo que os beneficiam, um privilégio. Ter privilegio é ter segurança para cometer abusos e violências, mas não é o que o motiva.
Mas quem quer perder seus privilégios?? Como podemos pensar que, no interior de uma sociabilidade tão individualista, competitiva e movida pela falácia da meritocracia, sujeitos farão o exercício do reconhecimento de privilégios? É ilusório acreditar que, num contexto onde impera a reificação das relações sociais, e a instrumentalização dos sentimentos, afetos e emoções, homens oprimidos e ressentidos por sua inferioridade de classe reconheçam seus poucos privilégios, que os permitem a ilusão de superioridade, controle e poder.
Insistir na ferramenta “reconheça seus privilégios” é, em grande medida, contribuir, segundo hooks, na lavagem cerebral que leva a “equacionar o comportamento abusivo e violento em relação às mulheres com o exercício de privilégios, eles não terão uma compreensão dos danos que causam a si mesmos ou a outros, nem terão, assim, nenhum motivo para mudar”. (p. 123). A violência precisa ser denunciada como “expressão de relações de poder pervertidas, como uma falta de controle sobre as próprias ações, de impotência emocional, irracionalidade extrema, e, em muitos casos, completa insanidade” (p. 123). Em síntese, como expressão de uma verdadeira desumanização.
O desafio está posto e ele não é pequeno. Homens devem ser aliados nessa luta que reconhece a necessidade de superação do sexismo, do racismo e do classismo. Feminismo é um compromisso político, defender o feminismo é defender soluções viáveis e estratégias concretas. •
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Nota: escrevi esse texto em março do segundo ano pandêmico, nunca publiquei.
Hoje, quinze de dezembro, fim de ano e outros fins, bell hooks se eterniza na luta, nos afetos e na esperança de quem ousa lutar e criar poder popular.
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