Desenvolvimento e seus sobrenomes
Desde a segunda metade do século passado, os países do sul global vêm sendo alimentados com uma concepção de desenvolvimento enquanto objetivo civilizatório. Essa concepção é, na realidade, uma série de imposições políticas, econômicas, culturais e sociais que podem ser entendidas muito mais como estratégias de manutenção da posição imperialista das grandes potências.
De acordo com Alberto Acosta, importante referência latino-americana para a discussão do Bem Viver, é importante destacar que o discurso do desenvolvimento carrega dicotomias (como avançado-atrasado, centro-periferia), que representam novas expressões do imperialismo que busca consolidar uma linearidade, um etapismo que pressupõe a negação das identidades próprias em detrimento de um modelo unificador.
Essas novas expressões produzem interferências e ingerências nas decisões internas dos países tidos como subdesenvolvidos. Um exemplo é como os organismos financeiros internacionais, como FMI e Banco Mundial, impõem regras, eixos e diretrizes às políticas sociais destes países como condição para acesso a financiamentos. Essa estratégia, mais que instaurar, perpetua a lógica colonial na América Latina.
Em outras palavras, trata-se de uma imposição de uma racionalidade ocidental no que diz respeito à relação homem/natureza. Incorporando o discurso da necessidade de modernização, negamos nossa ancestralidade, nossas raízes históricas e culturais numa busca pelo “civilizado”, negando as possibilidades de auto-determinação e modernização própria.
Novamente referenciando Acosta, é importante ressaltar que, ainda que tenhamos buscado alternativas a esse quadro, caímos em releituras que não alcançaram a raiz do problema. Os “sobrenomes” atribuídos ao desenvolvimento não rompem com a devastação ambiental e social do capitalismo que o sustenta.
A racionalidade ocidental nega a relação integrada entre o ser humano e a natureza e nesse sentido o progresso tecnológico se sustenta por uma desenfreada exploração social e ambiental que aprofunda a desigualdade, a degradação da natureza, o desemprego e a miséria.
A superação dessa lógica colonial e a construção de alternativas devem, portanto, ter como horizonte uma sociedade pós-capitalista e pós-imperialista. A construção de novos projetos de sociedade deve dar voz e protagonismo à sujeitos coletivos historicamente marginalizados, à concepções e paradigmas anti-coloniais que valorizem a soberania alimentar, a autodeterminação dos povos e a emancipação humana. •