TRANSGRESSÕES DE CORPOS EM FESTA
| La Jungla, Wifredo Lam (1943) |
A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa.Eduardo Galeano
Num ambiente literário ocidental fundamentalmente patriarcal, as narrativas de Pedro Lemebel e Caio Fernando de Abreu são adubos que auxiliam no reflorestamento das mentes dominadas pela monocultura de afetos¹.
O poema Manifiesto (Hablo por mi diferencia) de Lemebel, lido em uma intervenção política em 1986, no Chile, treze anos após o golpe de estado que instituiu uma ditadura cívico-militar no país, retrata afetividades que escapam à heteronormatividade de forma transgressora.
O poema canaliza um ressentimento e indignação que se transformam em ferramenta de denúncia. De cara o artista diz a que veio: “No soy un marica disfrazado de poeta / No necesito disfraz”. A luta contra a repressão política e sexual é uma marca forte do poema. A expressão “marica” carrega uma reivindicação dos corpos marginalizados, oprimidos também pela pobreza, pela exploração do trabalho, pela violência colonial.
Lemebel parece fazer uma dança por meio da qual se aproxima e se afasta, se identifica e ressalta a diferença. Em pleno ato político de esquerda, posição que se identifica, escancara que “ser pobre y maricón es peor”. Estremece as bases de uma esquerda machista incapaz de olhar para além das opressões de classe e de pensar um futuro que não seja preto e branco.
A construção da masculinidade é tensionada por uma moral revolucionária que também nega afetividades livres e, nesse sentido, essa masculinidade é ressignificada: “Mi hombría espera paciente / Que los machos se hagan viejos / Porque a esta altura del partido / La izquierda tranza su culo lacio / En el parlamento”
O poema soa como um grito dos corpos excluídos em plena praça pública, é a vingança dos corpos transgressores, dos corpos em festa que querem voar.
Anos antes, Caio Fernando Abreu publica o conto “Aqueles Dois”, dezoito anos após o golpe cívico-militar que instituiu uma ditadura no Brasil. O conto retrata afetividades dissidentes com uma sutileza que leva o leitor ao lado do narrador para acompanhar e observar as cenas.
A mesma delicadeza constrói a relação entre os personagens Raul e Saul. A narrativa expressa uma atração e afetos que são ordinários, comuns, criando assim uma identificação com o leitor por meio de um exercício de aproximação a partir daquilo que nos perpassa, o desejo.
Embora esse desejo não esteja muito bem definido pelos próprios personagens, o conto, assim como o poema de Lemebel, expressa também um desejo por uma outra sociedade. Mas é a partir do espaço privado que esse desejo vai tomando forma, longe dos olhares opressores:
A relação público-privado é também a relação com as subjetividades e com a desconstrução e ressignificação das afetividades. Enquanto aqueles dois não tinham certeza dos próprios sentimentos, o poeta esbraveja “Yo no pongo la otra mejilla / Pongo el culo compañero”.
Se a escrita sutil de Caio questiona a heterossexualidade compulsória, o poema de Lemebel questiona a cisgeneridade como um regime político sustentado também pelas camadas mais progressistas e revolucionárias. Fato é que as duas narrativas incomodam.
O incômodo tem papel fundamental na desconstrução de identidades e papéis sociais hegemônicos. O “deserto de almas” é, talvez, povoado de pessoas catequizadas a uma monocultura de afetos e a literatura é um caminho para o reflorestamento.
Os diversos textos artísticos podem expressar a heterogeneidades culturais, identitárias e subjetivas que permitem o confronto com concepções que sustentam diversas violências de gênero. A transgressão por meio da literatura e outras artes é um convite aos corpos em festa. •