Notas sobre Salón de Belleza de Mario Bellatin
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| Imagem: capa editada da obra Salón de Belleza |
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Salón de Belleza
Mario Bellatin • 1994
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A obra Salón de Belleza de Mario Bellatin retrata uma realidade caótica que se aplica em qualquer contexto, espaço e momento da sociedade capitalista. As expressões mais cotidianas do fetiche da mercadoria e da reificação do ser social irão aparecer na obra de Bellatin tanto nas relações sociais, quanto nos hábitos aculturados do personagem-narrador, especialmente em sua relação com aquários, um hábito associado com “diversión extranjera”.
A narrativa atemporal inicia já com a transformação de um salão de beleza repleto de aquários em um Moridero, um lugar de acolhimento de homens em fase terminal de uma doença não revelada. A narrativa é construída num “vai e vem” de relatos sobre os peixes e os seres humanos, quase que de forma intercalada, mas bastante orgânica e natural, demonstrando não haver distinção entre estes e aqueles.
O proprietário do salão de beleza que se converte em um Moridero é homem, travesti e também sofre da mesma doença que compõe o pano de fundo da obra. Diante da ausência de políticas públicas capazes de oferecer tratamento ou acolhimento aos doentes a demanda do Moridero vai crescendo ao passo que os peixes também vão morrendo e os aquários se esvaziando.
É precisamente o paralelo que o autor faz com um salão de beleza e um Moridero, ambos observados pela perspectiva de simulação de um aquário, que evidencia os traços mais sutis dos processos de reificação do ser social. Se referindo às mulheres frequentadoras do salão de beleza o personagem revela: “La mayoría eran mujeres viejas o acabadas por la vida. Sin embargo, debajo de aquellos cutis gastados era visible una larga agonía que se vestía de esperanza en cada una de las visitas”.
Assim como um aquário, que aparece em diversos momentos da narrativa como uma simulação, uma representação da vida, neste trecho os mecanismos de simulação da beleza, possivelmente padronizada, também aparecem como uma representação da vida, uma maquiagem contra a morte. A beleza e a esperança aparecem no trecho como noções fetichizadas, artificiais e paliativas em relação a agonia provocada pelo processo de reificação onde a vida é medida pela aparência, pela utilidade e pela produtividade da juventude.
A doença que consome a vida dos frequentadores do Moridero não é mais que um fator que acelera essa improdutividade, que converte pessoas em objetos descartáveis numa sociedade centrada na mercadoria.
A presença do aquário aparece em diversas passagens como um ponto de fuga, um fôlego que lembra o personagem que está vivo. A água cristalina dos aquários de outrora era fonte rejuvenescedora e mesmo sendo também consumidos pela enfermidade, os aquários seguem simulando um lugar de vida em meio ao ambiente caótico do Moridero.
Mas mais do que isso, os aquários são também experimentos, espaço onde o personagem manipula e controla a vida de acordo com seus desejos mais sádicos, mantendo os “peces de mayor jerarquía”. Essa constante tensão entre vida/beleza e morte extrapola o ambiente limitado do aquário e do salão de beleza e se materializa também no Moridero, numa espécie de mise en abyme.
Observando o comportamento dos peixes, o personagem revela sentir “el extraño sentimiento producido por la persecución de los peces grandes que buscaban comerse a los chicos.” Esse sentimento parece provocar no personagem uma reação onde o oprimido assume o lugar do opressor. Sendo um travesti que por diversas vezes precisou esconder suas “roupas de mulher” e sendo também acometido pela enfermidade, assume uma postura que, se a princípio parece garantir atenção e cuidado aos quais o Estado deveria prestar aos enfermos, logo manifesta sua posição de controle, autoritarismo e indiferença.
Também na expressão da sexualidade, ao relacionar-se com um dos enfermos, o personagem objetifica aquele corpo para seu prazer e, mesmo que duvide em alguns momentos de seus sentimentos, o rejeita. Quando então falece, o personagem revela que “para ese entonces, el cuerpo del muchacho sólo era uno más al que se tenía la obligación de eliminar”.
O verbo eliminar expressa um sentimento não apenas do personagem, mas também um pensamento social em relação a grupos minoritários que são marginalizados tanto pela “improdutividade” como mencionado anteriormente, mas também em razão do gênero, da identidade e/ou orientação sexual, da cor, da origem, da classe. Essa reificação própria da sociabilidade do capital é expressa na obra em diversos momentos dos quais destacamos dois.
O primeiro, de forma mais sutil, no comportamento moralizante de homens que só podem se encontrar com travestis e explorarem suas sexualidades de forma mais aberta à noite, quando “ninguém” vê. Na luz do dia, sequer aproximam-se do salão de beleza.
O outro momento, também carregado de preconceitos e possivelmente de uma ética cristã burguesa, se expressa na tentativa da comunidade em destruir o Moridero e incendiá-lo, evocando uma purificação. Nesses dois momentos é evidente a crítica à função da ideologia em reforçar a lógica de reificação daqueles corpos. O papel do Estado enquanto sustentação desse sistema também é revelado nesse episódio quando, além de se omitir quanto aos atendimentos e serviços públicos necessários, se manifesta por uma de suas instituições, a polícia, para fazer inspeção e cobrar medidas sanitárias.
Um dos grandes triunfos da obra é levar o leitor a questionar ou relativizar o conceito de humanização. Bellatin parece provocar a ideia de que aquilo que se considera humanizado (uma política pública humanizada, um acolhimento humanizado, etc) é sempre variante, flutuável, contextualizado. A epígrafe do livro, nesse sentido, é bastante sugestiva. O autor cita o Premio Nobel de Literatura Yasunari Kawabata: “Cualquier clase de inhumidad se convierte, con el tiempo, en humana”.
A narrativa caótica é costurada por momentos de sensibilidade, amor, paixão, preocupação e medo. Sentimentos que parecem sempre esbarrar nas condições objetivas, materiais, levando o leitor a uma aceitação, a uma acomodação fatalista e até aceitação pelo “menos pior”.
As ideias de dignidade da pessoa humana e da plena expansão dos indivíduos em suas potencialidades parece um horizonte utópico e inalcançável, o que oferece certo conforto mesmo diante dos momentos mais reificantes e porque não, de completa barbárie. •
