Tom Zé e o inferno do terceiro mundo

Imagem: arquivo pessoal / Manifestación, Antonio Berni.


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Ui (Você inventa)

Artista: Tom Zé e Odair Cabeça de Poeta

Álbum: Estudando o samba 1976

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Nascido no interior da Bahia em 1936, Tom Zé é um artista autenticamente brasileiro que deixa transbordar suas referências em Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e até Euclides da Cunha. O folclore do sertão baiano e a ruptura de padrões são marcas de sua antimúsica, como ele mesmo costuma conceituar.


A última faixa do álbum Estudando o Samba, de 1976 é uma composição sua e de Odair Cabeça de Poeta. Quase como uma prosa, Tom Zé costuma introduzir a canção explicando que  a música de Odair Cabeça de Poeta “O Forró Vai Ser Doutor” estava fazendo um sucesso danado ao ponto de ouvirem rumores de que o presidente Bush estava ficando incomodado, com medo de que o forró traria problemas ao rock. 

Assim, explica Tom Zé, a letra é um telegrama ao presidente, na tentativa de “acalmar as coisas”.



VOCÊ INVENTA: GRITE!

EU INVENTO: AI!

VOCÊ INVENTA: CHORE!

EU INVENTO: UI!

VOCÊ INVENTA O LUXO

EU INVENTO O LIXO

VOCÊ INVENTA O AMOR

EU INVENTO A SOLIDÃO

VOCÊ INVENTA A LEI

E EU INVENTO A OBEDIÊNCIA

VOCÊ INVENTA DEUS

E EU INVENTO A FÉ

VOCÊ INVENTA O TRABALHO

E EU INVENTO AS MÃOS

VOCÊ INVENTA O PESO

E EU INVENTO AS COSTAS

VOCÊ INVENTA A OUTRA VIDA

EU INVENTO A RESIGNAÇÃO

VOCÊ INVENTA O PECADO

E EU FICO AQUI NO INFERNO – VALHA-ME DEUS, NO INFERNO.


A letra é uma sátira a invenção, ou melhor a invasão cultural estadunidense. Mas vai além, a letra expõe o imperialismo norte-americano que se concretiza na superexploração do trabalho, na dominação ideológica, no racismo ambiental, nas interferências políticas, na dor, na violência de viver no inferno do terceiro mundo.


Tom Zé nos lembra que, se a arte não é o único caminho para a transformação social, sem ela tampouco conseguiremos vislumbrar uma nova sociedade no horizonte.