A antidefesa de Fidel: denúncia e manifesto

 

Imagem: Enrique De La Osa / Google.

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Fidel Castro. La historia me absolverá.

Editorial de Ciencias Sociales, 2007 • 90 pp

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As tentativas de calar una voz insurrecta, são o pano de fundo onde, com uma perspicaz sabedoria, Fidel vai tecendo sua revolta contra a tirania do homem "más indigno de los que han nacido en esta tierra".


Era outubro de 1953, Fidel Castro estava a setenta e seis dias encarcerado, solitário e incomunicável. Assume sua própria defesa perante um tribunal que o irá julgar pelo assalto ao quartel Moncada. Assume sua própria defesa argumentando que


sólo quien haya sido herido tan hondo, y haya visto tan

desamparada la patria y envilecida la justicia, puede hablar

en una ocasión como ésta con palabras que sean

sangre del corazón y entrañas de la verdad.


O profundo sentimento de patriotismo e um radical humanismo constituem o terreno onde o comandante decide fincar seus pés e conduzir seu discurso por uma Cuba livre. Fazendo de sua voz sua principal arma, Fidel inverte o julgamento e de acusado passa a ocupar o lugar de acusador.


Em linhas gerais, se pode dividir seu discurso em três momentos: denúncia das atrocidades cometidas pela ditadura de Fulgencio Batista, manifesto político dos ideais e proposta do movimento insurgente e por fim, argumentos jurídicos como acusador do governo ilegítimo de Batista.


Quanto às denúncias, Fidel condena tanto as violações sangrentas e assassinatos, quanto a usurpação e concentração em um único, os Poderes Legislativos e Executivos, além de questionar e ironizar a independência do Poder Judiciário. Também denuncia as manobras ideológicas e de manipulação das consciências levadas a cabo por Batista. 


Fidel estava seguro do apoio popular e de que os militares estariam dispostos 


a abandonar la odiosa bandera de la tiranía y abrazar la de la libertad,

defender los grandes intereses de la nación y no los mezquinos intereses de un grupito; virar las armas y disparar contra

los enemigos del pueblo, y no contra el pueblo


Complementa ainda: "A los que dudan que muchos soldados se hubieran sumado a nosotros, yo les pregunto: ¿Qué cubano no ama la gloria? ¿Qué alma no se enciende en un amanecer de libertad?


Fidel não está alheio a necessária disputa de consciência ao humanizar os soldados os descrevendo como homens que pensam, sentem e que são afetados pelos mesmos problemas de todo o povo (subsistência, aluguel, educação dos filhos), mas mais do que isso, deixa um legado importante para a formação política das futuras gerações acerca de um debate que persiste até os dias atuais: milicos são trabalhadores?


Retomando a ênfase en el pueblo, Fidel passa a fundamentar seu discurso nos anseios por uma pátria digna e justa. Chama pueblo, aqueles que estão sem trabalho, os trabalhadores do campo, operários industriais, pequenos agricultores, professores, pequenos comerciantes, e jovens profissionais das mais diversas áreas de atuação que se frustram frente as portas fechadas do mercado de trabalho.


Neste momento, utilizando sabiamente seu discurso de defesa como um manifesto político, enumera as leis revolucionárias que seriam proclamadas se a tomada do quartel Moncada tivesse sido bem sucedida. Acrescenta ainda que seria declarada uma política cubana de solidariedade aos povos do continente e aos perseguidos políticos.


Ressalta uma série de outras leis e medidas fundamentais como reforma agrária, reforma educacional, nacionalização de serviços essenciais, políticas de habitação, emprego, saúde e a necessária industrialização de Cuba. Sobre este último aspecto, argumenta que Cuba seguia sendo produtora de matéria prima para exportação num intercâmbio desigual da geopolítica mundial. Em todos esses aspectos, Fidel aponta não apenas a omissão do Estado, mas um projeto de Estado que estava em curso.


Diante desse quadro, aponta as respostas aos problemas sociais e econômicos expostos e convoca à luta: 


Los problemas de la República sólo tienen

solución si nos dedicamos a luchar por ella con la misma

energía, honradez y patriotismo que invirtieron nuestros

libertadores en crearla.


Ainda que tenha declaro que não pretendia tornar sua defesa num espetáculo, Fidel compara Moncada à uma oficina de tortura e morte de militares "carniceros". Chega a ponto de afirmar que em mais de quatro séculos, nem a crueldade de extermínio de indígenas constituiu uma página tão sombria e sangrenta na história cubana.


Os argumentos jurídicos elencados por Fidel buscam convencer os magistrados de que a resistência frente ao despotismo é legítima. Reivindica como constitucional, fazendo referência a Constituição de 1940 anulada pelo governo ditatorial, "el derecho de insurrección" e desafia o Tribunal atuar ousadamente de forma independente.


Fidel se faz povo, eterniza os que caíram em combate, afasta a centralidade no indivíduo e converte sua defesa pessoal na defesa e na luta pelo direito de homens e mulheres de serem livres. Não reivindica sua liberdade, ao contrário, confiante de que a história o absolverá, reivindica ser enviado junto aos seus companheiros na prisão.


Sua antidefesa é direcionada à causa mais grave levada por ele ao tribunal, que efetivamente deveria ser julgada: não sua liberdade, mas sim uma justiça coletiva aos verdadeiros culpados pelo sangrento massacre de Moncada e por todas as mazelas sociais duramente apontadas em seu discurso e que seguiam livres. Governando.