“Dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada”
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| imagem: cena do filme Memórias do Subdesenvolvimento (1968) |
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Memórias do Subdesenvolvimento
Diretor: Tomás Gutiérrez Alea
P&B • 104’ • 1968
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Quando o assunto é cinema cubano, as tensões entre “instrumentos de propaganda oficial” versus “títulos paradigmáticos pela contínua crítica às contradições dos sistema político da ilha”, recorrentemente abrem as discussões. Para o crítico de cinema Joel Del Río (2011), nos diversos períodos de filmes produzidos pelo Instituto Cubano da Arte e da Indústria Cinematográficas - Icaic [1] “[...] são preeminentes tanto o compromisso com o poder revolucionário como a crítica a disposições originadas por esse mesmo poder”[2].
O título dessa postagem é parte de um discurso[3] de Fidel Castro em junho de 1961 que marca a conclusão de um ciclo de três reuniões realizadas na Biblioteca Nacional com a participação de grande parte da comunidade artística e intelectual cubana. No discurso ressalta que a Revolução deve contar com a maioria do povo, aproximar o povo de suas ideias.
São inúmeros os títulos de ficção do cinema cubano que evidenciam a imbricação quase orgânica da análise crítica com a arte e, diante da máxima “dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada” carregam um conteúdo que, aparentemente ou não, flerta com a heresia. Del Río, já citado anteriormente, o primeiro longa-metragem a trazer esse elemento é La muerte de un burócrata (1966), de Tomás Gutiérrez Alea.
Gutiérrez Alea é certamente um dos cineastas cubanos com maior projeção internacional. Ajudando a fundar o Icaic, Alea mantém a frequência de um longa-metragem a cada dois anos durante a década de 60, dentre eles Memórias do Subdesenvolvimento, de 1968, baseado na obra homônima de Edmundo Desnoes. Memórias é uma produção do Icaic e recebeu diversas premiações no âmbito do XVI Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, dentre outras.
O enredo é simples: o ano é 1961 e um pseudo intelectual pequeno burguês decide não sair de Cuba quando centenas de famílias, motivadas pelo triunfo da Revolução, estão deixando a ilha. Dentre elas, Elena, sua ex-companheira. Vivendo um emaranhado de sentimentos, Sergio Carmona vai demonstrando o alívio que vai sentido com a partida de pessoas que estavam em seu círculo de convivência mais próximo, e evidencia seu incômodo com suas superficialidades e influências exageradas do imperialismo yankee.
Por outro lado, na busca pelo novo, Sergio constata a permanência e até a impressão de uma Habana monótona, interiorana, perdendo suas características “parisienses”. Sergio, também influenciado pela cultura do norte, vive um poço de contradições. Carrega elementos saudosos de uma Cuba que talvez não tenha existido para além de suas memórias e evoca uma cultura a moda europeia.
Ao se permitir uma aproximação com “el pueblo”, chega a uma conclusão, típica de sua essência de colonizado, da mediocridade dos cubanos subdesenvolvidos. Nesse aspecto, o binóculos na sacada de seu apartamento é ilustrativo dessa posição confortável de analisar Cuba pelas lentes de alguém pretensiosamente culto e superior às camadas populares, trabalhadoras.
Narrado em primeira pessoa e carregado de impressões subjetivas do personagem principal, o longa explicita contradições e provoca uma olhar mais atento para essa realidade multifacetada que está se construindo após o triunfo da Revolução. As memórias de Sergio, que se priva de qualquer participação ou acercamento às relações sociais e políticas de sua época, são ilustradas com cortes de cenas de documentários que oferecem certa objetividade à narrativa, já que essa objetividade está marcada também pela subjetividade dos autores.
Essa relação subjetividade-objetividade é o elemento que vai costurando a trama. Comentando a estrutura da produção num depoimento à Silvia Oroz para o livro Tomás Gutiérrez Alea - Os filmes que não filmei (1985), o diretor revela como a opção por uma estrutura aberta contribuiu para percorrer esse caminho de aproximação à realidade:
"[...] Outro exemplo, a mesa-redonda Literatura e revolução, que tínhamos anotado no roteiro mas não sabíamos como resolver. Aproveitamos um encontro internacional de intelectuais e juntamos David Viñas, René Depestre, Edmundo Desnoes, Salvador Bueno e Gianni Toti para fazer essa cena. Entre o público, estava o dramaturgo americano Jack Gelber. Explicamos ao grupo de intelectuais para que filmaríamos essa mesa redonda e pedimos a Jack Gelber que fizesse urna (sic) pergunta. Isso foi uma loucura. Sentia que, a qualquer momento, perderia o controle da situação. Havia uma grande dispersão e eu tinha que estar atento para pegar os momentos-chave da discussão – não poderia filmá-la toda, era muito grande e gastaria muito filme. A certa altura, Gelber se levanta e pergunta por que a revolução estava usando aquela forma arcaica, uma tradicional mesa-redonda, para discutir os problemas da cultura. Nada planejado, pergunto o que lhe ocorreu na hora, e no filme a pergunta serviu para fechar a cena. É outro exemplo das possibilidades de trabalhar numa estrutura aberta”.[4]
O que Memórias evidencia é que os valores burgueses foram colocados em xeque pela Revolução Cubana, mas não morreriam do dia pra noite. As contradições vividas por Sergio parecem, ao fim, submergi-lo e ele se torna incapaz de se livrar do subdesenvolvimento que realmente o caracteriza. •
[1] O Instituto Cubano da Arte e da Indústria Cinematográficas foi criado em março de 1959 pelo governo revolucionário cubano.
[2] RIO, Joel del. Algumas memórias do cinema cubano mais polêmico. Estud. av. São Paulo, v. 25, n. 72, p.145-159, Aug. 2011 . Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142011000200013&lng=en&nrm=iso>. access on 28 Mar. 2021.
[3] O discurso pode ser conferido aqui:
<https://prestesaressurgir.blogspot.com/2016/01/discurso-palavras-aos-intelectuais-de.html?spref=fb&fbclid=IwAR0LWkAoKXHRnDUTWwVSSK_-TgA9HpGRdDqlYJbNKABuzzoU1CuDQPIQpZU> Acesso em 28/03/2021.
[4] Trecho disponível em: https://blogdoims.com.br/memorias-de-memorias/. Acesso em 28/03/2021.