Literatura revolucionária ou revolução na literatura?

foto: arquivo pessoal.


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Adriane Vidal Costa
Os intelectuais, o boom da literatura latino-americana e a Revolução Cubana.
Anais do XXVI Simpósio Nacional da ANPUH  2011
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Se a Revolução Cubana abalou as estruturas da geopolítica do século XX, a literatura certamente não ficaria ilesa. O cenário em ebulição impulsionou váries escritores a conduzir sua literatura como ferramenta de transformação social.


Escrito para o XXVI Simpósio Nacional de História, realizado na USP no ano de 2011, o texto de Adriane Vidal Costa, “Os intelectuais, o boom da literatura latino-americana e a Revolução Cubana”, analisa um momento histórico que ficou conhecido como o boom latino-americano, momento em que as letras latino-americanas se tornam universais. 


A autora, doutora em história pela Universidade Federal de Minas Gerais, reconhece o impacto para o mundo das letras causado pela Revolução Cubana, ou ainda, o impacto das utopias revolucionárias na produção literária de uma sociedade. Adriane enfatiza: a revolução cubana mostrou para o mundo que a América Latina era capaz de produzir literatura.

O período que se iniciou em 1962 e se estende por uma década, lançou para a literatura internacional escritores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier, Miguel Ángel Asturias, José Donoso, entre outros autores da literatura hispano-americana.

O texto pode ser dividido em três momentos, o primeiro busca contextualizar o boom e apresentar a leitura deste momento por alguns de seus protagonistas, como García Márquez, Cortázar e José Donoso. Além disso este momento aborda as tramas pessoais envolvendo os cinco principais nomes do boom, Gabo, Vargas Llosa, Cortázar, Carlos Fuentes e José Donoso.

No segundo momento, Adriane Costa apresenta alguns dos elementos em relação à adesão dos escritores à Revolução e sintetiza: “Nesse contexto, ocorreu aquilo que chamamos de ‘via de mão dupla’: se, de um lado, a Revolução Cubana ajudou a promover o boom da literatura latino-americana e, consequentemente, o reconhecimento de vários escritores latino-americanos; de outro lado, o apoio dos escritores mais renomados do boom a Cuba foi importante para ’legitimar’ o processo revolucionário” (p.8).

Nesse ponto, a autora ressalta a importância da revista cubana Casa de las Américas que se dedicava a dar evidências às resenhas dos livros que ela premiava, sem entrar na engrenagem capitalista de promoção da literatura limitada  a vendas elevadas. 

Por fim, a autora traz para o debate a dualidade do fenômeno mercadológico versus qualidade literária. A primeira perspectiva é endossada pela crítica da revolução como “artigo de consumo” e pela rotulação dos escritores do boom como “autores de segunda categoria” em relação aos escritores europeus, essa última trazida por Mario Benedetti, o qual a autora evidencia neste terceiro momento do texto. Além de comparar os protagonistas do boom com uma máfia, Benedetti critica a ausência de autores e autoras referentes na literatura latino-americana e que não participaram “dessa promoção publicitária”.

A excelência das obras literárias latino-americanas, no entanto, são inquestionáveis. Nesse aspecto, as críticas de Julio Cortázar em relação ao boom são essenciais e, assim como as de Mario Benedetti, merecem uma atenção especial num próximo momento.

Nessa perspectiva da qualidade literária das obras latino-americas, a autora encerra seu trabalho enfatizando que a literatura do boom expressava a vitalidade da América Hispânica e evidencia as conclusões de Rodríguez Monegal, quando afirma que o boom levou a literatura hispano-americana à maturidade, uma literatura que produziu escritores revolucionários.

O trabalho da autora apresenta um estado da arte em relação ao período conhecido como boom latino-americano apresentando importantes registros históricos, referências documentais e bibliográficas. O trabalho não problematiza as marcas do patriarcado na produção e difusão da literatura. Ainda que apresente trechos do texto de María Pilar Serrano “El boom doméstico”, escrito como apêndice da obra de seu marido José Donoso, a autora apenas o define como “relato inteligente e divertido”.

O texto de Adriane Costa apresenta, no entanto, uma série de elementos que instigam o aprofundamento na temática, como a politização dos escritores em torno de um mesmo programa político, a escolha do realismo fantástico e a responsabilidade social do escritor em forjar o “novo homem”. Em síntese a autora cumpre traduzir o boom da literatura latino-americana como “um cenário propício que levou muitos escritores a reforçar a crença no poder transformador da literatura”.